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30/09/2015

Combate à violência de gênero pressupõe nova forma de educar o homem

O premiado pesquisador estadunidense Quentin Walcott, falando na manhã de segunda-feira (28) em evento promovido pelo MP-PR, em parceria com o Consulado Geral dos Estados Unidos da América, em São Paulo, destacou que para combater a violência contra as mulheres é preciso educar os homens. Com o tema “O papel dos homens no enfrentamento à violência de gênero”, o evento, que teve tradução simultânea e transmissão ao vivo, contou com a participação de convidados e perguntas do público, que lotou o auditório do edifício-sede do MP-PR.

Abrindo o encontro, o procurador-geral de Justiça, Gilberto Giacoia, explicou que a cultura machista, de desvalorização da mulher, está relacionada à lógica de concentração do poder que compôs o padrão cultural brasileiro desde os tempos da colônia. Lembrou que as Ordenações Filipinas davam ao marido o direito de assassinar a mulher flagrada em adultério, ideia que permaneceu na cultura brasileira por muito tempo, sendo inclusive retratada no romance “Gabriela, Cravo e Canela”, de Jorge Amado, no qual um coronel que matou a mulher e o amante teve seu gesto celebrado como corajoso e íntegro pela comunidade, desconsiderando por completo a tragédia da morte de uma mulher, vítima da violência machista que prevalecia à época. O procurador-geral afirmou, ainda, a necessidade de se combater essa cultura machista. “A partir do momento em que se implanta culturalmente uma percepção da igualdade de gênero, temos como resultado uma sociedade melhor e mais justa”, declarou.

A procuradora de Justiça Samia Saad Gallotti Bonavides, coordenadora do Centro de Estudos e Aperfeiçoamento Funcional, reafirmou a importância de se combater a violência contra a mulher, lamentando que, ao mesmo tempo em que o Brasil foi capaz de eleger uma mulher como presidente, haja manifestações de um ódio muito grande em relação a ela. Samia afirmou desejar que as reflexões sobre o tema possam levar a mudanças de atitudes: “Que essas reflexões nos auxiliem a crescer, para que sejamos mais efetivos no combate a todo tipo de violência, mas principalmente no campo da violência contra a mulher”.

Sociedade justa – “Parodiando Nelson Mandela”, conforme afirmou, o procurador de Justiça e coordenador do Centro de Apoio Operacional das Promotorias de Justiça de Proteção aos Direitos Humanos, Olympio de Sá Sotto Maior Neto, disse que “ninguém nasce odiando outra pessoa em razão de seu gênero, acaba aprendendo; se aprende isso, pode aprender a tratar com igualdade e dignidade as mulheres”. Sustentou ser necessário tratar do tema do enfrentamento do homem à violência porque a regra é que o companheiro é o agressor, aquele que discrimina e age com preconceito. “Avançando na perspectiva da promoção da igualdade de gênero, seremos instrumentos para construção de uma sociedade livre, justa e solidária”, disse.

Representando o movimento social de mulheres, Marucha Vettorazzi afirmou que o enfrentamento ao sexismo é um desafio mundial. Comentou que o Paraná é o terceiro estado brasileiro no ranking de violência contra a mulher, lamentando que os casos sejam ainda mais complicados quando se trata da mulher que vive na zona rural. Também falando como representante do movimento social de mulheres, a historiadora Heliana Hemetério conclamou a todos a lutarem pela transformação da sociedade, afirmando que a luta contra a discriminação deve ser de todos e não apenas dos segmentos atingidos.

“Eles por Elas” – Antes da palestra principal, de Quentin Walcott, os homens presentes na mesa foram convidados a assinar um documento de apoio à campanha “Eles por Elas”. A campanha foi criada pela ONU Mulheres, entidade da Organização das Nações Unidades para a igualdade de gênero e o empoderamento das mulheres. Trata-se de esforço global para envolver homens e meninos na remoção das barreiras sociais e culturais que impedem as mulheres de atingirem seu potencial e para ajudar homens e mulheres a modelarem juntos uma nova sociedade. A “Eles por Elas” foi lançada em 20 de setembro de 2014 e tem como objetivo garantir o compromisso de 1 bilhão de homens de apoiar a igualdade de gênero e o empoderamento das mulheres. Personalidades como o presidente Barack Obama e o secretário-geral da ONU, Ban Ki-moon, já assinaram o documento. O Ministério Público vem desenvolvendo atividades que enfatizam o papel do homem como agente que pode promover a igualdade de gênero, principalmente no acompanhamento de grupos reflexivos de homens agressores em todo o estado. A ONU Mulheres do Brasil recebeu plano de atividades do Ministério Público do Paraná e já o enquadrou como apoiador oficial e efetivo das ações da campanha.

Educar o homem –
O palestrante Quentin Walcott contou um pouco do trabalho da Connect, organização dos Estados Unidos da América dedicada ao combate da violência doméstica na cidade de Nova York, do qual é codiretor executivo. Walcott desenvolve um trabalho junto a agressores masculinos, que objetiva não somente transformar o comportamento de homens e meninos, mas também fazê-los aliados e atuantes na luta contra todas as formas de violência, particularmente contra a mulher. Ativista contra a violência e educador, Walcott passou os últimos 18 anos direcionando os homens à crítica e à desconstrução da violência de gênero. Por conta de seu trabalho, recebeu diversos prêmios.

Walcott destacou que o problema da violência doméstica é global e histórico, constituindo-se hoje numa questão de direitos humanos. O que os homens estão fazendo para criar a violência? – questionou. Tudo começa, explicou o pesquisador, com o modo como os homens vêem a mulher na sociedade e se comportam em relação a ela. Para ele, é preciso “transformar as ideias, os sistemas e crenças que os homens demonstram na sociedade em relação às mulheres”. Os homens são os autores de grande parte da violência. Isso decorre do modo como os homens são educados e tratados desde que nascem. Nos meninos, é incutida desde cedo a ideia de que eles têm que ser “machos”. Desde cedo, aprendemos sobre masculinidade e feminilidade, incluindo os privilégios e as relações de poder que os homens têm e as mulheres não. “Temos que entender esse histórico, entender como essas coisas acontecem na sociedade. Quando pensamos em como os homens são criados, isso tem a ver com as atitudes que tomamos em relação às meninas”, explicou. Até mesmo no ambiente escolar, os homens são privilegiados. Um exemplo: os esportes masculinos são levados a sério e recebem investimentos, enquanto os femininos são desprezados. “O sistema respalda a ideia de que as mulheres não são tão importantes”, afirmou. Segundo ele, as estruturas sociais não promovem a igualdade. Do modo como as estruturas são montadas, é difícil não ver as mulheres como inferiores. “Quando nos ensinam que as mulheres são objetos, é fácil maltratá-las”, lamentou.

Trabalho constante – No trabalho de combate à violência, a Connect promove reuniões com grupos de homens, nos quais se discutem vários temas ligados ao machismo e à violência contra as mulheres, contou o palestrante. A Connect educa 700 pessoas por ano para trabalharem com homens, mulheres e crianças. O palestrante resume a atuação da organização na metodologia dos “4 Cs”: coragem para iniciar um trabalho e enfrentar a temática; criatividade para “pensar fora da caixa” e inserir as discussões em locais onde se reproduzem os padrões de masculinidade; consistência que garanta que não haja desistências ante os percalços que serão enfrentados e comunicação, para que o trabalho seja divulgado e multiplicado.

Para Walcott, a violência de gênero é tão importante quanto a violência em tempo de guerra. O trabalho de combate tem que ser constante. “É preciso haver espaços seguros para homens e mulheres terem essa conversa”, disse. Ele falou de algumas dificuldades no trabalho de discussão da violência de gênero. Assim como acontece com frequência no Brasil, também em Nova York há muitos casos em que a vítima depende economicamente do agressor, o que constitui um entrave para que haja denúncias de agressão nessas situações. A questão religiosa é outro fator complicador – há famílias em que a religião tem um papel importante e encobre, em alguns casos, atitudes de agressão.

A palestra foi mediada pela promotora de Justiça Mariana Seifert Bazzo, coordenadora do Núcleo de Promoção da Igualdade de Gênero (Nupige) e pelo promotor de Justiça Juliano Marcondes Paganini, da Comarca de Palmas, com destacada atuação na matéria de combate à violência de gênero.

 


 

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